Antigo Testamento

Pentateuco Livros Históricos Livros Sapienciais Livros Proféticos

Novo Testamento

Evangelhos e Atos Cartas de São Paulo Carta aos Hebreus Cartas Católicas Apocalipse Sobre a Bíblia

Livro do Apocalipse

Apocalipse é um termo grego que significa “revelação”. “Revelação” é, na verdade, o título com que o último livro da Bíblia aparece em al­gumas edições. O estilo deste livro é estranho para a cultura oci­dental, mas enquadra-se perfeitamente na men­ta­lidade semita.

As raízes desta literatura encontram-se no Antigo Testamento (Isaías, Za­carias, Ezequiel e sobretudo Daniel), mas também em vários livros judeus que não entraram na Bíblia: Henoc, 2 Esdras e 2 Baruc. Estes últimos já fo­ram escritos depois da destruição do Templo. Foi principalmente nestes livros que se inspirou o autor do Apocalipse de João.

GÉNERO LITERÁRIO   É uma literatura própria das épocas de crise e de perse­gui­ção, em que se procura “revelar” os caminhos de Deus sobre o futuro, para consolar e en­corajar os justos perseguidos, dando-lhes a cer­teza da vitó­ria final. Era muito comum no fim do AT e mesmo no tempo em que foi escrito o NT, pois vivia-se um ambiente apo­calítico.

Estava-se no “fim dos tempos”, isto é, adivinhava-se uma revo­lução glo­bal, com uma radical mudança no modo de ser e de viver. Para isso, muito contribuiu a decadência do Império Romano e as guerras da Pales­tina, que levaram à destruição do Templo e de Jerusalém, no ano 70. Daí os três textos apoca­líticos dos Evangelhos Sinóticos, direta ou indiretamente ligados à destruição de Jeru­salém: Mt 24-25; Mc 13; Lc 21.

LIVRO   Carateriza-se por imagens grandiosas e simbólicas, constituídas por elementos da natureza, apresentadas em forma de visões e “explicadas” ao vidente por um anjo.  Tais imagens são tiradas do AT, dos apocalipses judai­­cos, dos mitos e lendas antigas. Assim, o papel dos anjos (7,1-3); o livro selado (5,1); o livro para comer (10,1-11); as trombetas (8,2); as taças (15,7); os relâm­pagos e trovões (4,5; 10,3).

Estas imagens sugerem mais do que des­crevem, e grande parte delas nada tem a ver com a realidade. Trata-se de puros símbolos (1,16; 5,6; 21,16), que podem referir-se a pessoas, animais, núme­ros e cores, deixando ao leitor um espaço para alguma criatividade e “inteli­gência” (13,18; 17,9).

As visões simbólicas são projetadas no Céu, para dizer que pertencem ao mundo espiritual, da fé e o que nelas se revela acontece também na terra. Duas forças antagónicas estão em luta permanente: o Dragão – a possível personificação do império romano, no tempo de Domiciano (81-96 d.C.) – e o Cordeiro: Cristo, Cordeiro pascal, é o vencedor de todas as forças do Mal.

OCASIÃO, FINALIDADE E AUTOR   A perseguição a que se refere o Apocalipse  poderia ser a que açoitou as igrejas da Ásia no tempo do impe­rador Domiciano, por volta do ano 95. Também havia as perseguições in­ternas, isto é, as heresias, sobretudo os nicolaítas (2,6.15), os marcionitas e os que prestavam culto ao imperador.

O livro pretende responder à questão: “Quem manda no mundo? Os tira­nos, os senhores da Terra, ou o Senhor do Céu?” Este paralelismo entre o Céu e a Terra assegura aos crentes que Deus os acompanha a partir do Céu, e a História segue o seu curso na Terra sob o controlo de Deus e não sob o controlo dos poderes maus. O “vidente” vive na terra mas vê o que se passa no Céu e transmite aos seus irmãos sofredores a certeza de que Jesus está com eles e a sua vitória está para breve.

O simbolismo, por vezes irracional, de que o autor se serve para transmitir esta esperança aos perseguidos, assegura aos cristãos que o Reino de Deus ultrapassa a História que eles estão a viver, e ao mesmo tempo é uma lingua­gem secreta para os perseguidores.

O autor apresenta-se a si mesmo como João e escreve em Patmos – pe­quena ilha do Mar Egeu – onde se encontra desterrado por causa da fé (1,9). A tradição identificou este João com o Apóstolo João, mas não existem argu­mentos suficientes para o comprovar (Mt 4,21; Jo 21,1-14).

ESTRUTURA E CONTEÚDO   O Apocalipse  apresenta diversas hipóteses de estrutura. Propomos uma divisão em duas partes, depois de uma Intro­dução (1,1-20):

Introdução (1,1-20):

Introdução e saudação: 1,1-8;

Visão do Ressuscitado: 1,9-20.

I. Cartas às Sete Igrejas (2,1-3,22):

Sete cartas às igrejas: Éfeso, Pérgamo,

Tiatira, Sardes, Filadélfia e Lao­diceia.

II. Revelação do sentido da História (4,1-22,5):

O trono de Deus: 4,1-11;

Sete selos: 5,1-8,5;

Sete trombetas: 8,6-11,19;

Sete sinais: 12,1-15,4;

Sete taças: 15,5-16,21;

Queda da Babilónia: 17,1-19,4;

Triunfo de Cristo. Nova Jerusalém: 19,5-22,5.

Epílogo (22,6-21).

TEOLOGIA   O Apocalipse  exprime a fé da Igreja da “segunda geração cristã”, isto é, do tempo dos discípulos dos Apóstolos. A doutrina do Corpo Místico (Jo 15,1-8; 1 Cor 12,12-27) recebe aqui nova dimensão: Cristo está no meio dos sete candelabros (1,13) e tem na mão direita as sete estrelas (1,16), símbolos das sete igrejas, que personificam a Igreja universal; Ele é apresentado no mesmo plano que Javé e com os mesmos atributos: é «o Senhor dos senhores e Rei dos reis» (17,14; 19,16), aquele que tem um «nome que ninguém conhece» (2,17; ver 1,8.18; 2,27; 3,12; 14,1; 15,4; 19,16).

Deus é o único Senhor da História, apesar das forças conjugadas de to­dos os se­nho­res deste mundo; por isso, acontecimentos do AT, como o Êxodo, as pra­gas do Egito, teofanias, destruições... servem de pano de fundo das novas int­ervenções de Deus na História do presente.

No meio desta História, a Igreja aparece como espaço litúrgico onde o Cordeiro tem presença permanente, fazendo da comunidade “o céu” na terra. Isso não impede que as forças do Mal estejam em luta constante com ela (e com o Cordeiro: 2,3.9.10.13; 3,10; 6,9-11; 7,14).

Por isso, o Apocalipse  não pretende predizer nem “revelar” pormenores sobre o futuro da Igreja e da Humanidade, mas conferir a certeza absoluta na bondade de Deus, que se manifestou em Cristo. Também não “fecha” a Bíblia; mas abre diante do leitor crente um caminho de esperança sem fim: «Eu renovo todas as coisas.» (21,5) «Eu venho em breve (...). Vem, Senhor Jesus!» (22,7.20).