Antigo Testamento

Pentateuco Livros Históricos Livros Sapienciais Livros Proféticos

Novo Testamento

Evangelhos e Atos Cartas de São Paulo Carta aos Hebreus Cartas Católicas Apocalipse Sobre a Bíblia

INTRODUÇÃO GERAL

A Sagrada Escritura é o conjunto dos livros escritos por inspiração divina, nos quais Deus se revela a si mesmo e nos dá a conhecer o mistério da sua vontade. Divide-se em duas grandes secções: AN­TIGO TESTAMENTO, que contém a revelação feita por Deus antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo ao mundo; NOVO TESTAMENTO, que con­tém a revelação feita diretamente por Jesus Cristo e transmitida pelos Apóstolos e outros autores sagrados.

A SAGRADA ESCRITURA, PALAVRA DE DEUS AOS HO­MENS

Deus falou aos homens através de outros homens por Ele escolhidos para esse fim, mas sobretudo por meio de seu Filho, Jesus Cristo (Heb 1,1-2). Desse modo, a Palavra de Deus tornou-se linguagem humana sem deixar de ser Palavra de Deus, assim como o Filho de Deus se fez homem sem deixar de ser Deus; e sujeitou-se, tal como Ele, às limitações e condicionamentos da palavra humana, exceto no erro formal. Tais condi­cio­namentos são:

Condicionamentos de tempo   Os livros da Bíblia são fruto do seu tempo. Por isso, se quisermos entender a mensagem de Deus, temos de conhecer o tempo e as circunstâncias históricas em que foi escrito cada um deles.

Condicionamentos de espaço   Os livros da Bíblia nasceram em vários luga­res geográficos, cada qual com o seu ambiente próprio: uns na Pales­tina, outros no mundo helénico e outros no Império Romano. E um livro também é filho do meio em que nasceu.

Condicionamentos de raça   Os livros da Bíblia procedem quase todos do povo semita, mais concretamente do povo judeu, que tem um modo de pensar e de se exprimir muito diferente do nosso. É preciso conhecê-lo, para entender a Palavra de Deus.

Condicionamentos de cultura   Os livros da Bíblia são obra de muitos autores com mentalidade e cultura diferentes, às vezes distanciados entre si por vários séculos. Tudo isso marcou a Bíblia e deve ser tido em conta, pois os autores sagrados, embora escrevessem sob inspiração de Deus, não foram privados da sua personalidade.

TRANSMISSÃO DA PALAVRA DE DEUS   A Palavra de Deus, no Antigo Testamento, revelou-se através da Tradição e da Sagrada Escritura. Com Cristo, Palavra em pessoa, começa uma nova Revelação: o Evangelho. Os trans­­missores desta nova Palavra são os Apóstolos, que dão origem à Tra­di­ção Apostólica. Os Evangelistas, mais tarde, inspirados pelo Espírito Santo, recolhem e fixam essa Tradição por escrito, dando assim origem à Sagrada Escritura do Novo Testamento.

Por isso, diz o concílio Vaticano II: “A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando elas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e ten­dem ao mesmo fim.” (Dei Verbum, 9)

INSPIRAÇÃO DA SAGRADA ESCRITURA   A Inspiração é o que cara-teriza e essencialmente distingue a Bíblia de todos os outros livros huma­nos. Acreditar na Inspiração da Sagrada Escritura foi sempre um dogma de fé para os Judeus e para a Igreja. Os Judeus dividiam a Bíblia em três partes: a Lei (Torá), que era considerada a Palavra de Deus por excel­ência; os Profetas (Nebi’îm), que falaram em nome de Deus; e os Escritos (Ketu­bîm), formando todos juntos os «Livros santos» (1 Mac 12,9). Jesus Cristo e os Apóstolos citaram-nos como Palavra de Deus (At 1,16; 4,25). Mas São Paulo e São Pedro é que nos transmitem os dois textos clássicos sobre esta verdade. Paulo diz: «Toda a Escritura é divinamente inspirada» (theopneus­tos: 2 Tm 3,14-17); e Pedro afirma: «Mas sabei, antes de mais, que nenhuma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo, é que os homens santos falaram em nome de Deus.» (2 Pe 1,21)

Os Santos Padres também são unânimes em afirmar que Deus é o autor da Sagrada Escritura e que o hagiógrafo é instrumento de Deus. E a Igreja manifestou a sua fé nesta verdade em vários concílios e documentos. O último e o mais expressivo é a constituição dogmática Dei Verbum (DV), do concílio Vaticano II, que diz: “As coisas reveladas por Deus que se encon­tram escritas na Sagrada Escritura foram consignadas por inspiração do Espírito Santo.” E mais adiante, falando da natureza desta inspiração, acrescenta: “porque escritos por inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor e, como tais, foram confiados à Igreja. Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus esco­­lheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades para que, agindo Deus neles e por eles, pusessem por escrito, como verda­deiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria.” (n.° 11) Portanto, segundo a constituição Dei Verbum, os livros sagrados são produto da ação trans­cen­dente de Deus que suscita, dirige e envolve inteiramente a atividade humana, agindo em constante coordenação com ela.

Esta ação divina estendeu-se a todas as faculdades e atos do homem que concorreram para a produção dos livros santos, e abrange todas as partes dos livros e todos os géneros literários que neles se encontram. No entanto, longe de tornar o hagiógrafo passivo, tal ação favorece a sua livre espontaneidade; porque o homem é tanto mais livre e ativo quanto mais o Espírito Santo o acompanha. Deus, quando atua no homem, fá-lo sempre com suma delica­deza, respeitando a sua liberdade e a sua maneira de ser, mas valorizando-as e potenciando-as. A Bíblia não é, pois, fruto de um ditado mecânico, mas uma obra em que Deus e o homem intervêm: Deus com as suas perfeições infinitas, e o homem com as suas faculdades e conforme a sua capacidade. Por isso, os dois são verdadeiros autores dos livros sagrados.

A VERDADE DA SAGRADA ESCRITURA   Diz também a Dei Verbum: “E assim como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve aceitar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, causa da nossa salvação, quis que fosse con­signada nas Sagradas Letras.” (DV, 11)

A verdade da Bíblia é a consequência imediata da Inspiração. Com efeito, se Deus é o autor da Bíblia, se toda ela é obra do Espírito Santo, não pode conter qualquer afirmação que vá contra a verdade e a santidade do mesmo Deus. No entanto, não podemos buscar na Bíblia qualquer verdade, mas só a que interessa à salvação do homem, ou seja, a verdade religiosa, e só aquela que Deus, causa da nossa salvação, quis que fosse registada nas Escrituras. Trata-se de uma verdade não puramente especulativa, mas concreta, que não se dirige apenas à inteligência, mas ao homem todo; uma verdade que é pre­ciso descobrir através dos muitos e variados géneros lite­rários; uma verdade progressiva, revelada por etapas, obedecendo à peda­gogia de Deus em relação aos homens; uma verdade que está em toda a Bíblia e não apenas num livro ou num texto isolado. Por isso, a verdade dos textos sagrados só resulta da totalidade da Bíblia, como a santidade da Igreja resulta do conjunto dos batizados e não de cada um individualmente.

A INTERPRETAÇÃO DA SAGRADA ESCRITURA   “Porque Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana, o intér­prete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e o que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras.” (DV, 12)

Para esse fim, o Vaticano II lembra que é preciso ter em conta os géneros literários, os sentidos bíblicos e certas regras teológicas de interpretação.

Os géneros literários.  A verdade é proposta e expressa de um modo ou de outro, conforme se trate de géneros históricos, proféticos, poéticos, etc. Estes géneros devem ser entendidos como os entenderam os povos semitas ou helenistas, no tempo em que foi escrito cada um dos livros (DV, 12).

Os sentidos bíblicos.  Tradicionalmente, têm-se distinguido na Bíblia os sentidos seguintes: literal, pleno, típico e acomodatício.

O Sentido literal é aquele que o autor quis dar ao texto. Pode ser pró­prio e impróprio, figurado ou metafórico. O próprio é aquele em que as palavras são tomadas no seu significado corrente; o impróprio é aquele em que as palavras são tomadas no sentido conotativo ou figurado, por exemplo: «Vós sois o sal da terra.» (Mt 5,13)

O Sentido pleno é o significado mais profundo do texto; sendo ini­cial­mente pretendido pelo autor divino, só se descobre à luz de uma revelação posterior, especialmente à luz do Novo Testamento. Este sentido resulta do facto de a Bíblia ter dois autores: Deus, para quem o futuro é presente, e que, ao inspirar um determinado texto, já conhece toda a revelação posterior nele implícita; e o hagiógrafo ou autor humano, que apenas conhece e tem pre­sente o mistério que Deus quer revelar nesse determinado momento histórico da escrita. Exemplo claro disto são as profecias messiânicas do Antigo Tes­tamento: para nós são claras, porque o Messias já veio; mas o significado que hoje lhes atribuímos não foi atingido plenamente pelo autor sagrado, e só Deus o teve presente desde o princípio.

O Sentido típico dá-se quando certos acontecimentos, instituições, pes­soas, etc., por vontade de Deus, representam e prefiguram acontecimentos, ins­tituições e pessoas de ordem superior. Assim, a serpente de bronze er­guida por Moisés (Nm 21,8-9) é figura de Cristo crucificado (ver Jo 3,14); a passagem do Mar Vermelho (Ex 14,22) é figura do Batismo (1 Cor 10,2); o maná (Ex 16,14) é figura da Eucaristia (Jo 6).

O Sentido acomodatício consiste em dar às palavras da Sagrada Escritura um sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar, devido a uma certa semelhança entre a passagem bíblica e a sua aplicação. Este sentido é muito usado na liturgia e na pregação. Temos um exemplo claro nas festas de Nossa Senhora, em que a Liturgia relaciona com a Virgem Maria textos que se referem à sabedoria divina (Pr 8,22-36; Sir 24,14-16).

Regras teológicas de interpretação.  Além do já aduzido, o Concílio aponta estes princípios que devem reger a interpretação da Sagrada Escri­tura: “A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espí­rito com que foi escrita” (DV,12); ou seja: o mesmo Espírito que ins­pirou os livros santos deve iluminar os teólogos que, docilmente e com espírito de fé, se dedicam a interpretá-los. Cabe aos exegetas, “de harmonia com estas regras, esforçar-se por entender e expor mais profundamente o sen­tido da Escritura, para que, mercê deste estudo preparatório, vá ama­durecendo o juízo da Igreja.” A função dos exegetas é preparar e não substi­tuir o juízo último da Igreja, pois só esta “goza do divino mandato e do ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus” (DV,12).

OS LIVROS DA SAGRADA ESCRITURA   Os livros da Sagrada Escri­tura, tanto do Antigo como do Novo Testamento, agrupam-se em três con­juntos: históricos, sapienciais e proféticos, conforme o género literário que neles predomina (Ver p. 1771-1772).

Nesta obra, cada conjunto e cada livro são precedidos de uma Introdu­ção. Nela são dadas todas as informações necessárias para enquadrar o texto no seu con­texto  histórico, geográfico e literário e se apontam os seus objetivos e a sua mensagem teológica.

UNIÃO DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO   O Antigo Testa­mento é a história da revelação de Deus ao povo de Israel, narrada e expli­cada pelos autores sagrados e escrita nos livros da Antiga Aliança, como verdadeira Palavra de Deus. Estava orientado, “sobretudo, a preparar, a anunciar profeticamente e a significar com várias figuras a vinda de Cristo, Redentor universal, e a do Reino messiânico” (DV,15). Embora a sua missão fosse preparar o povo de Israel para a vinda de Cristo, mantém esse mesmo sentido para os homens de hoje. «A Lei (AT) foi nosso pedagogo para nos conduzir a Cristo» (Gl 3,24). A experiência do povo de Israel é útil também para quem continua à procura de Cristo. Todos temos necessidade de nos preparar para os novos adventos de Cristo, que se realizam na Liturgia e na vida cristã, rumo à Parusia do Senhor.

O Antigo Testamento dá-nos a conhecer Deus e o ser humano e o modo como Deus se relaciona com o homem e a mulher. Porque esse conhecimento está adaptado às pessoas a quem se dirige, no Antigo Testamento encon­tram-se “imperfeições e coisas restritas a um tempo determinado.” Realmente, Deus tolerou modos imperfeitos de observar a lei moral: poligamia, divórcio, vingança, etc. Mas isso manifesta a pedagogia divina, que vai conduzindo o povo do imperfeito ao mais perfeito. Por isso, o Antigo Testamento conduz à perfeição do Novo Testamento.

Para além disso, o Antigo Testamento já exprime um vivo sentido de Deus, contém doutrinas preciosas sobre Deus e a sua transcendência, sobre a criação, sobre o ser humano enquanto imagem de Deus, sobre a Provi­dên­cia, etc.; e oferece-nos um tesouro admirável de orações. Por isso, “os cristãos devem aceitar devotamente esses mesmos livros”, como raiz do Novo Testa­mento e do Cristianismo (DV,15).

A SAGRADA ESCRITURA NA IGREJA   A constituição Dei Verbum diz que “a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras a par com o próprio Corpo de Cristo”; que sempre as considerou e continua a considerar, junta­mente com a Sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; e, por úl­timo, chama-lhes “a fonte pura e perene da vida espiritual” (n.° 21).

Mas, para ser realmente a fonte da vida espiritual, é preciso que a Bíblia volte a ser “a alma da teologia”, da pregação, da pastoral, da catequese e de toda a instrução cristã (DV, 24). Que todos, sacerdotes, religiosos e fiéis man­tenham um contacto íntimo e constante com os Livros sagrados através da leitura assídua, do estudo e da meditação. “Porque desconhecer as Escrituras é desconhecer a Cristo” (São Jerónimo). Para isso, são precisas traduções acompanhadas das notas explicativas correspondentes, em todas as línguas vivas, para que cada um as possa ler na sua língua materna (DV, 25).

Para estar cada vez mais em consonância com esta doutrina da Igreja, e porque as ciências bíblicas e da linguagem evoluem, é que a D IFUSORA B ÍBLICA  meteu ombros a esta edição da Bíblia Sagrada, profundamente revista e atualizada tanto na versão do texto como nas introduções e notas.

LEITURA ORANTE DA SAGRADA ESCRITURA E “LECTIO DI-VINA”   O Sínodo dos bispos de 2008, sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, na Mensagem ao Povo de Deus (nº 9) e na Proposição 46 recomendou a utilização da Lectio divina como método de oração na Igreja. Depois, na exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, Bento XVI referiu-se a essa recomendação, no nº 86: «O Sínodo insistiu repetida-mente sobre a exigência de uma abordagem orante do texto sagrado como elemento fundamental da vida espiritual de todo o fiel, nos diversos ministérios e estados de vida, com particular referência à Lectio divina.» E no número seguinte, explica «os passos fundamentais» deste método clássico na Igreja, que estava bastante esquecido na sua prática pastoral: «Começa com a leitura (Lectio) do texto, que suscita a interrogação sobre um autêntico conhecimento do seu conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? Sem este momento, corre-se o risco de que o texto se torne somente um pretexto para nunca ultrapassar os nossos pensamentos. Segue-se depois a meditação ( Meditatio ), durante a qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? Aqui cada um, pessoalmente mas também como realidade comunitária, deve deixar-se sensibilizar e pôr em questão, porque não se trata de considerar palavras pronunciadas no passado, mas no presente. Sucessivamente chega-se ao momento da oração ( Oratio ), que supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão, ação de graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma. Finalmente, a Lectio divina conclui-se com a contemplação ( Contemplatio ), durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao julgar a realidade, e interrogamo-nos: qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede? (…) Há que recordar ainda que a Lectio divina não está concluída, na sua dinâ-mica, enquanto não chegar à ação ( Actio ), que impele a existência do fiel a doar-se aos outros na caridade.

Estes passos encontramo-los sintetizados e resumidos, de forma sublime, na figura da Mãe de Deus. Modelo para todo o fiel de acolhimento dócil da Palavra divina, Ela “conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração” (L c 2,19; cf. 2,51).» (nº 87).

COMO UTILIZAR ESTA BÍBLIA   Seguem-se algumas sugestões que aju­dam os leitores a tirarem o máximo proveito dos vários subsídios incluí­dos nesta edição da Bíblia Sagrada.

Divisão da Bíblia.   Tanto o Antigo como o Novo Testamento dividem-se em livros e estes, em capítulos; mas, para encontrar uma simples frase na Bíblia, os capítulos estão divididos em versículos (v.), muitas vezes forma­dos apenas por uma frase. O capítulo aparece destacado, em algarismos maio­res, no início do texto; a numeração dos versículos encontra-se, em algarismos mais reduzidos, no interior do texto. Na cabeça da página está indicado ao centro, o nome do livro por extenso; no ângulo exterior, esse nome em abreviatura e o número do capítulo ou capítulos correspondentes a essa página, por exemplo: Dt 3, correspondente ao capítulo 3 do livro do Deuteronómio.

Introduções.  Além desta Introdução Geral, a presente edição também inclui introduções ao Antigo Testamento e ao Novo Testamento, aos gran­des conjuntos de livros (Pentateuco, Históricos, Sapienciais, Proféticos, Evan­gelhos e Atos, Cartas de São Paulo e Cartas Católicas) e a cada livro, a fim de o situar no seu tempo e género literário e melhor se entender a sua mensagem.

Os títulos.   Aparecem ao longo de toda a Bíblia, em carateres negros, em maiúscula, ou vermelhos, em minús­­cula. São da responsabilidade dos tradu-tores e procuram adiantar ao leitor uma ideia geral do texto que vai ler. Como não são Palavra de Deus, não devem ser lidos ao proclamar a Palavra em pú­blico.

Notas explicativas.  Encontram-se ao fundo da página e são impor­tantes para entender o sentido e o contexto histórico-literário ou religioso de um capítulo ou versículo. Muitas referem-se a um texto maior; outras, a uma simples frase ou palavra. Nesta edição, foram reduzidas.

O asterisco.   Sempre que este sinal (\f + \fr 24. \ft A seus irmãos. José vaticina aos israelitas, seus irmãos de raça, os gloriosos aconteci­men­tos do Êxodo. Estes irão levá-lo para a Terra Prometida aos patriarcas (Ex 13,19; Dt 1,8; 34,4; Js 24,32; Heb 11,22) e hão de sepultá-lo em Siquém (Js 24,32).\f*) aparece junto de um versículo, dentro do texto, remete para uma nota explicativa ou uma referência a outros textos bíblicos (“lugares paralelos” ou textos que têm a mesma ideia), no fundo da página.

Citações em itálico.   Quando dentro de um texto do Novo Testa­mento é feita uma citação do Antigo, esta aparece escrita em itálico.

Suplementos.   No final desta Bíblia encontram-se vários Suplementos, que proporcionam ao leitor um conhecimento global de certos temas ou explicam melhor alguns termos técnicos ou de matérias concretas que para lá são reme­tidos pelas notas de rodapé.

Índice de Notas.   Na presente  edição, este Índice foi abolido. No en-tanto, está igualmente disponível, noutras edições desta Bíblia, com todas as notas e o respetivo Índice.

Índice Bíblico-Pastoral.   Oferece temas variados para utilização pas­toral em grupos de estudo e oração ou para simples cultura bíblica. A partir da leitura e do estudo das várias referências feitas em cada chamada, pode-se desenvolver um desses temas a vários níveis ou ficar com uma ideia global da sua reve­lação em toda a Bíblia, mediante uma analogia da fé.

Lecionário.   Também oferecemos, no final, um Lecionário Dominical e Festivo que indica as Leituras bíblicas a fazer nos Domingos e Festas, ao longo de cada um dos três ciclos do Ano Litúrgico.

Aformação da Sagrada Escritura foi lenta e muito complicada. A maior parte dos seus livros são obra de muitas mãos e a composição de alguns deles durou séculos. Assim, o Pentateuco, marcado pelo cunho de Moisés, só conheceu a forma definitiva muitos séculos depois da sua morte (séc. V a.C.); a literatura profética, iniciada com Amós e Oseias (séc. VIII a.C.), terminou com Joel e Zacarias (séc. IV a.C.); os livros históricos, embora contendo tradições do séc. XIII a.C., foram escritos apro­ximadamente entre os séc. V e I a.C.; e a literatura sapiencial, iniciada com Salomão (séc. X a.C.), só a partir do séc. V a.C. recebeu a sua forma definitiva e alguns livros são do limiar do Novo Testamento.

Portanto, a ordem dos livros que a Bíblia apresenta não é histórica, mas lógica; e a atribuição do Pentateuco a Moisés, dos Salmos a David, dos livros sapienciais a Salomão e dos 66 capítulos do Livro de Isaías a este profeta não corresponde à realidade, mas é uma simplificação da História. Se quisermos captar o verdadeiro sentido dos textos, não podemos contentar-nos com esta simplificação, pois cada um deles tem o seu contexto vivo, do qual não pode ser separado. Por isso, antes de passarmos a outros pro­ble­mas, vamos tentar resumir a história da formação dos livros sagrados.

HISTÓRIA LITERÁRIA DO ANTIGO TESTAMENTO   A revelação de Deus à humanidade transmitiu-se, durante muitos séculos, através da tra­dição oral. A Escritura só começa a ganhar corpo a partir de David. Já antes de David existiam documentos orais ou escritos, como o Código da Aliança (Ex 20,22-23,33), o Decálogo (Ex 20,2-17; Dt 5,6-21), o poema de Débora (Jz 5,1-31), o cântico de Moisés (Ex 15,1-18).

É também a partir do reinado de David-Salomão que se escreve uma das quatro “fontes” que se integrou no Pentateuco (a Javista), se inicia o Saltério por meio de David e a literatura sapiencial recebe o seu primeiro impulso.

Com a morte de Salomão, o reino divide-se em Israel, ou Reino do Norte, e Judá, ou Reino do Sul. A história destes dois reinos encontra-se nos livros dos Reis. Em Israel aparecem os profetas Elias e Eliseu, defensores do culto a Javé; no tempo de Jeroboão II (783-743 a.C.), Amós e Oseias e a tradição “Eloísta” do Pentateuco. Em Judá, pouco depois de Amós e Oseias, surgem Isaías e Miqueias (ao profeta Isaías pertence só a primeira parte do Livro de Isaías: cap.1-39).

Em 722 a.C., o Reino do Norte cai sob o poder da Assíria e muitos habi­tantes fogem para Judá, levando consigo escritos e tradições sagradas; deste modo, unem-se duas das tradições do Pentateuco: a Javista e a Eloísta (Jeo­vista).

No tempo do rei Josias (640-609 a.C.), restaura-se o templo e procede-se a uma reforma religiosa: o Reino do Norte tinha desaparecido e o do Sul estava a ser castigado, porque tinham sido infiéis a Javé. É neste período e com esta perspetiva que aparecem os livros dos Juízes, Samuel e Reis.

Em 587 a.C., Nabucodonosor avança sobre Jerusalém, toma a cidade e leva para Babilónia, como reféns, muitos dos seus habitantes. É um momento importante na História do povo de Deus. Os sacerdotes, longe do templo, vol­tam às tradições antigas, dando-lhes um cunho litúrgico e cultual. São ainda eles que, depois do Deuteronómio, dão ao Pentateuco a sua forma defi­nitiva.

Os judeus que tinham ficado na Palestina vêm chorar sobre as ruínas do templo e assim nascem as Lamentações, que a Vulgata, indevidamente, atri­buiu a Jeremias. Ao mesmo tempo, um profeta anónimo, discípulo de Isaías (Segundo Isaías), conforta os desterrados na Babilónia (Is 40-55). Depois do regresso da Babilónia, são compostos os capítulos 56-66 de Isaías (Terceiro Isaías) e, no séc. V a.C., completa-se a obra com os capítulos 24-27 e 34-35 (Apocalipse de Isaías).

Em 538 a.C., de novo em Jerusalém, o Deuteronómio separa-se dos livros históricos e une-se ao Pentateuco; aparece Rute e os profetas Ageu e Zaca­rias. É também neste século que floresce a literatura sapiencial, editando-se o livro dos Provérbios e, pouco depois, o Livro de Job. Com a recons­trução do templo, nascem novos salmos e adaptam-se os antigos à nova liturgia.

No séc. IV a.C., já deveria estar completo o Saltério; nasce o Cântico dos Cânticos; escreve-se Jonas, que canta a providência e a salvação universal de Deus, e Tobias, que exalta a providência de cada dia. A historiografia deste século está representada por 4 livros: 1 e 2 das Crónicas (ou Parali­pómenos), Esdras e Neemias, que são obra de um só autor, chamado Cronista.

No ano 333 a.C., com a conquista da Palestina por Alexandre Magno, começa, na literatura bíblica, o período helenista. Como reação, nasce um novo género literário tipicamente hebreu: o midrache bíblico. Pertencem a este período o Eclesiastes (ou Qohélet) e Ben Sira (ou Eclesiástico).

Em 175 a.C., Antíoco IV obriga todos os seus súbditos a adotar a vida e a religião dos gregos. Esta medida provoca a revolta dos Macabeus. É neste ambiente que Daniel publica um livro apocalítico, para animar os seus com­patriotas na luta. Anos depois (100 a.C.), aparece o livro de Ester, 1.° e 2.° dos Macabeus e o livro de Judite.

Enquanto os judeus da Palestina resistiam à helenização, alguns judeus de Alexandria procuraram assimilar o pensamento grego, sem sacrificar os seus valores próprios. Esta atitude exprime-se no livro da Sabedoria.

CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO   O Antigo Testamento é a parte mais longa da Bíblia. Constitui a lista oficial ou cânon de livros aceites como inspirados e referentes ao tempo da religião hebraica ante­rior ao cristianismo. Mas esta lis­ta ou Cânon da Sagrada Escri­tura conheceu algu­mas divergên­cias, já desde os tempos antigos. Tais divergências nascem das próprias vicissitudes da formação da Bíblia entre os antigos hebreus.

A Bíblia que tem a lista mais longa de livros, chamada dos

Se­tenta, é, na verdade, a mais an­tiga e provém do ju­daísmo de Ale­xan­dria. Apresenta uma tra­dução dos textos bíblicos para o grego, feita nos três séculos ime­dia­ta­mente anteriores ao cris­tia­nismo.

Curiosamente, a lista mais re­cente é aquela que nos propõe ape­nas o texto origi­nal hebraico; a list­a final dos livros desta Bíblia He­braica foi fixada por uma as­sem­bleia de rabinos em Jâmnia, só pelos finais do séc. I d.C., e os critérios aí seguidos levaram a diminuir a lista de livros até então reconhecidos como pertencendo à Bíblia. Ficaram assim de fora, no todo ou em parte, alguns livros incluídos há séculos na Bíblia do judaísmo de Alexandria.

Por várias circunstâncias, nomeadamente pelo facto de estar na língua grega de uso internacional no Mediterrâneo oriental, depressa o cristia­nismo fez sua a Bíblia Grega da Tradução dos Setenta (LXX) e sempre aceitou sem grandes dificuldades o cânon do Antigo Testamento por ela apresentado. Entre os cristãos, a posição a tomar diante destes dois cânones só foi dis­cutida mais significativamente depois da Reforma Protestante. Hoje em dia, as confissões protestantes em geral só aceitam os livros que per­tencem ao cânon hebraico, o chamado “cânon curto”.

Os livros que se encontram a mais na lista grega judaica e cristã antiga são chamados dêutero-canónicos (“apócrifos”, entre os protestantes) ou pertencentes ao “segundo cânon”, chamado “cânon longo”. Convencionou-se dar o nome de “primeiro cânon” à lista de livros que são coincidentes tanto na Bíblia Hebraica como na Bíblia Grega – livros chamados proto-canónicos (ver p. 2135-2136).

NOMES DE DEUS    Nesta Bíblia adotamos diferentes termos para os diferentes nomes de Deus no AT hebraico.

NOMES DE DEUS Nesta Bíblia

Javé (Yhwh):Senhor  (só no texto)
’Adonay:Senhor
’El:Deus
’Elohim:Deus
’Eliôn:altíssimo
’El ‘Eliôn:Deus altíssimo
… Seba’ot:… do universo
Shadday:supremo
’El Shadday:Deus Supremo
’Adonay Yhwh:Senhor Deus

CONTEÚDOS E SECÇÕES   A atual lista de livros do Antigo Testamento foi, ao longo da sua história e tradição, organizada segundo princípios difer­entes, daí resultando classificações que não são coincidentes.

As duas prin­ci­pais classi­fica­ções represen­tam, ainda hoje, as duas tra­dições da Bíblia He­brai­­ca e da Bíblia Grega, no judaísmo an­ti­go. A pri­meira di­­vide o Antigo Testamento em To­rá (Lei), Nebi­’îm (Profetas) e Ke­­tu­­bîm (Escri­tos); a segunda di­vide-o em Pen­ta­teuco, Histó­ri­cos, Sapien­ciais e Proféticos.

Apesar de as mo­dernas tra­du­ções tenderem a utilizar sobre­tu­do o texto he­brai­co da Bíblia, para estas divi­sões e para o or­dena­mento dos livros dentro do Antigo Testa­men­­­­to, é muito mais fre­quente segui­rem o es­que­ma da segun­da, ou dos Seten­ta. É a que se­gui­mos nesta edi­ção, fazendo an­te­ce­der cada uma des­tas sec­ções de uma In­tro­dução pró­pria.

Este nome grego significa “cinco rolos”, ou livros, e inclui Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. A autoria do Pen­ta­teuco , tradicionalmente considerado como Lei de Moisés, foi atri­buída a este grande líder do povo hebreu tanto pelo judaísmo como pelo cristianismo antigos. Hoje, sabe-se que nenhum destes livros se pode atribuir a um único autor e menos ainda a Moisés, pois todos tiveram uma história literária complexa, como veremos.

Para além desta referência a Moisés, os livros do Penta­teuco  têm uma certa  sequência temática, pois descrevem as origens do povo de Israel até à sua definitiva instalação em Canaã. Nomeadamente: a origem da huma­nidade e do próprio povo hebreu na época patriarcal, a saída do Egito e a longa travessia do deserto; é nesta última fase que aparecem enquadradas as leis fundamentais para a vida religiosa e social dos israeli­tas. Longas secções narrativas alternam com grandes conjuntos de leis.

O modo de escrever daquele tempo, misturando História, Direito e Litur­gia, não coincide com o nosso modo de fazer Histó­ria; ao mostrarem a inter­venção de Deus nessa História, os autores do Pen­ta­teuco pretendem tam­bém apresentá-la como modelo da presença de Deus na História de cada povo.

FORMAÇÃO DO PENTATEUCO   s egundo alguns estudiosos, o texto atual deste conjunto resultaria de uma histó­ria literária anterior, a que chamam “fontes” ou “documentos” conhecidos com o nome de Javista (J), Eloísta (E), Sacerdotal (P) e Deutero­nomista (D).

De qualquer modo, o  Pentateuco não foi escrito de uma só vez nem é obra de um único escri­tor. Foi escrito a partir de tradições orais e escritas que se foram jun­tando progressivamente e formando unidades maiores ao longo  da história. A jun­ção de todo o material só se deu na época pós-exílica, altura em que se pode falar da redação final do Pentateuco. Certamente que o período à volta do Exílio influenciou a leitura de todo esse patri­mónio histórico e reli­gioso; mas, as tradições e outros materiais podem ser bastante antigos e man­ter, na sua forma final, os traços dessa antiguidade.

Provavelmente, o processo de formação dos cinco primeiros livros da Bíblia desenvolveu-se, nas suas linhas gerais, em vários períodos.

No início estaria um núcleo narrativo histórico bastante restrito, da época de Salomão. Este núcleo é depois retomado e ampliado por volta dos finais do séc. VIII a.C., recolhendo tradições e fragmentos do reino do Norte e relendo tradições antigas numa nova perspetiva.

No séc. VIII aparece o Deuteronómio primitivo, descoberto no tempo de Josias (622 a.C.) e incluindo essencialmente leis e um pequeno prólogo.

É de­pois ampliado para dar o texto atual de Dt 1-28.

As questões levantadas pelo Exílio fazem aparecer a grande obra histó­rica «deuteronomista» que se vai elaborando ao longo de várias fases, inte­grando, de algum modo, todos os materiais já recolhidos anterior­mente. Esta grandiosa recons­trução provoca uma série de retoques «deuterono­mis­tas», ao longo de todo o texto do Pentateuco , que já estaria redigido.

No exílio da Babilónia aparece o «escrito sacerdotal primitivo», obra dos sacerdotes exilados.

Depois do regresso do Exílio, no séc. V, este escrito é combinado com os precedentes, retocado e aumentado nalguns aspetos e vai ocupar um lugar dominante no conjunto da narração. A esta redação final se deve o termo de toda a trama narrativa na morte de Moisés e, logicamente, a delimitação do Pentateuco, separando o Deuteronómio do resto da história deute­ronomista. Este trabalho deve ter sido concluído por volta do ano 400 a.C..

O PENTATEUCO E A HISTÓRIA DE ISRAEL   O Pentateuco recebeu inegáveis influências de todos estes documentos ou tradições e de muitos outros fatores ligados à História e à religião de Israel. Mas, o que os auto­res do Pentateuco pretendem manifestar nesta História Sagrada não é tanto o povo com as suas virtualidades e peripécias históricas, mas o domí­nio absoluto de Deus sobre todas as coisas e sobre todas as instituições humanas, incluindo a realeza, que no Médio Oriente era considerada de ori­gem divina. O poder vem de Deus e da sua Palavra, transmitida pelos seus intermediários.

Esta “Lei” não é um simples conjunto de leis humanas; é um “ensina­mento” para viver segundo a von­tade de Deus, um chamamento à perfeição e à santidade: «Porque Eu sou o Senhor que vos fez sair do Egito, para ser o vosso Deus. Sede santos, por­que Eu sou santo.» (Lv 11,45)

O Pentateuco  é a Carta magna do judaísmo pós-exílico. Após esta difícil mas frutífera experiência, o Estado judaico, antes apoiado nas estruturas da monarquia davídica, passa a reger-se unicamente pela “Lei” de Deus e deixa-se orientar pelos que detêm o monopólio do culto, os sacerdotes. Uma comu­nidade monárquica transforma-se numa comunidade cultual em honra do Deus da Aliança. São os sacerdotes que editam e reeditam a Lei.

Sendo uma História Sagrada em que se manifesta a presença do Deus da Aliança na vida do seu povo, o Pentateuco desenvolve-se a partir de três fatores principais: a epopeia do Êxodo, a Lei do Sinai e a fé num Deus único. Por isso, mais tarde, e diferentemente de outros povos, Israel não neces­sitou da monarquia para sobreviver.

LEITURA CRISTÃ DO PENTATEUCO   O Pentateuco é uma história nunca terminada, mas sempre aberta às infinitas possibilidades do Senhor da História. Podemos, pois, dizer que o resto do Antigo Testamento é, de algum modo, uma releitura contínua do Pentateuco  à luz de novos aconteci­men­tos da História de Israel e do mundo que o rodeia.

Mas o Pentateuco também aponta para um novo Êxodo, para uma outra Terra Prometida, para uma outra presença de Deus – Jesus Cristo. Ele é a nova Lei, a nova manifestação de um Deus que nunca cessa de renovar a Aliança com o seu povo. Cristo e os primeiros discípulos leram o Penta­teuco como uma história aberta que se completa na vinda do Messias. A partir daí, a relação do homem com Deus já não passa pela observância material da Lei, mas pelo seguimento de Cristo. Porém, aquilo que se põe de lado não é o Pentateuco , mas apenas a interpretação fechada que dele fez o judaísmo rabínico.

Assim, o Pentateuco não só não impede, mas ajuda a compreensão de Cristo e do seu Evangelho: ao lê-lo, pensamos no Evangelho, e quando lemos o Evan­gelho, encontramos as suas raízes no Pentateuco ; não se pode ler os manda­mentos da Lei, sem os comparar com os manda­mentos da Nova Lei – as Bem-aventuranças. Os cristãos reconhecem em Cristo a Palavra de Deus encarnada, e no Evangelho, a Nova Lei; Lei que não vem abolir a antiga, mas dar-lhe toda a perfeição (Mt 5,17-18). Cristo, de que Moisés era apenas uma figura, veio fundar um novo povo, uma nova comunidade, liberta na Páscoa da sua Paixão-Ressurreição. Numa palavra, Cristo é, para os seus discí­pulos, a nova Lei, a nova Páscoa, o novo Templo de Deus entre os homens (Jo 2,21; Ap 21,3.22), a nova Aliança, não apenas com um povo, mas com toda a Humanidade. 

GÉNESIS

Ao primeiro livro da Bíblia – e, portanto, do Pentateuco – damos hoje o nome de Génesis . É termo grego e significa “origem”, “nascimento”. Os livros da Bíblia Hebraica não tinham qualquer título. Eram cha­mados, simplesmente, pela primeira ou primeiras palavras. Este chamava-se berechit. Os autores da tradução da Bíblia Hebraica para o grego (Bíblia dos Setenta) acharam por bem dar aos livros um título de acordo com o seu conteúdo. Como este livro trata do princípio de tudo, chamaram-lhe G énesis , isto é, Livro das Origens.

Conteúdo e estrutura   Todos os povos se perguntaram alguma vez: Donde viemos? Qual foi a nossa origem? Quem foi o fundador do nosso povo? Qual o nosso destino? Umas vezes, essas perguntas eram formuladas a partir de situações de desgraça coletiva: Que sentido tem o nosso fracasso e o nosso sofrimento? Que sentido tem a morte irremediável? Há um Alguém que possa responder a todas as interrogações do homem? Outras vezes, tinham um fundo político, pretendendo legitimar situações de privilégio pre­sente ou reclamar direitos fundados num passado mais ou menos remoto.

O povo de Israel, na sua reflexão interna ou no confronto com outros povos, religiões e culturas, colocou a si próprio estas e outras questões semelhantes e deixou-nos as suas respostas neste livro. O Génesis  é, pois, o livro das grandes interrogações e das grandes respostas, não só do povo de Deus, mas de toda a humanidade. Por isso se diz que este livro é uma espé­cie de grande pórtico da catedral da Bíblia, pois de algum modo a resume na totalidade da sua beleza e conteúdo.

O Génesis  engloba, também, grande parte da História do povo de Israel: desde “as origens” até à estadia de Jacob no Egito e a consequente forma­ção das doze tribos. Pretendendo dar-nos uma conceção histórica, hori­zon­tal e di­nâmica da História da Salvação, este livro faz a ligação entre “as ori­gens” da humanidade (1,1) e a História concreta do povo de Israel. Por isso apresenta-nos, sobretudo nos 11 primeiros capítulos, teologia e catequese em forma de História, ou melhor, de histórias e não de factos históricos no sentido científico.

Poderíamos resumir assim o seu conteúdo:

I. História das Origens (1,1-11,32)

1,1-2,4a: Criação do universo e dos seus habitantes (segundo a tradição Sacerdotal: P). 2,4b-3,24: Formação do homem e da mulher. Origem do pecado (tradição Javista: J). 4,1-24: “História de dois irmãos”, Caim e Abel. Descendência do pri­meiro. 4,25-5,32: Set e a sua descendência. 6,1-9,17: Corrupção da humanidade e Dilúvio (anti-Criação). 9,18-10,32: Re-criação, a partir de Noé, o homem novo. Lista de povos. 11,1-9: Torre de Babel: a humanidade constrói uma sociedade sem Deus. 11,10-32: Descendência de Sem até Abraão, promessa de um povo novo.

II. História dos Patriarcas  (12,1-50,26)

Ciclo de Abraão (12,1-23,20): vocação, emigração para Canaã e Egito. Nasci­mento de Isaac e Ismael. Morte de Abraão.

Ciclo de Isaac (24,1-27,46).

Ciclo de Jacob (28,1-36,43): já a partir de 25,19, Jacob começa a tornar-se a per­sonagem principal, tanto em relação ao pai (Isaac), como em relação a seu irmão Esaú.

Ciclo de José (37,1-50,26): o penúltimo dos filhos de Jacob, vendido como escravo para o Egito, faz a ligação histórica e teológica com o livro seguinte, o Êxodo. É um ciclo muito especial, também chamado História de José.

Este esquema histórico-literário apresenta-se como uma obra prima, não só a nível teológico, mas também na sua estrutura literária. De facto, a “His­tória das Origens” (cap. 1-11) aparece como Prólogo histórico-teo­lógico da História de Israel e da humanidade. E pretende ser o elo de liga­ção entre a Criação do mundo e Abraão, o pai do povo hebreu (cap. 12 ). O Egito, como lugar de escravidão do Povo, é lugar de peregrinação para Abraão, Jacob e José. Estes e outros elementos fazem a ligação deste livro com o Êxodo e com os outros livros seguintes.

Fontes e géneros literários   Donde vem todo este material?

O povo hebreu vivia numa região onde se cruzavam muitos povos e civiliza­ções. Este facto originou um inegável intercâmbio cultural entre eles. Os impé­rios que dominaram a Mesopotâmia e o Egito, assim como as civi­liza­ções da Fení­cia e de Canaã, são a fonte literária e histórica do Génesis e do AT em geral.

É inegável que nos 11 primeiros capítulos se encontram abundantes ele­ment­os dessas culturas, incluindo alusões a certos mitos da Suméria, da Babi­lónia e de Ugarit, especialmente aos poemas da Criação, Enuma-Elish e Atrahasis. O poema de Gilgamesh está também presente no relato do Dilúvio. Muitas vezes, os autores do Génesis colocam-se em polémica aberta contra os mitos pagãos, como no caso de 1,1-2,4a .

A História Patriarcal (cap. 12-50 ) acolheu lendas antigas e referências a El, que faziam parte do espólio cultural dos santuários cananeus. Encon­tra­mos, igualmente, pequenos factos alusivos ao convívio com povos vizi­nhos. No que se refere à origem dos Patriarcas, há relatos sobre os antepas­sados tribais, heróis antigos, genealogias ou listas de patriarcas (cap. 5 ) e de povos (cap. 10 ), e outras histórias que pretendiam explicar a origem dos povos em geral e de Israel em particular. Por isso, este livro tem géneros literários variados:

A lenda: é o mais comum e consiste em produzir um relato a partir de um facto real, nome de pessoa ou de lugar. Há lendas etiológicas, que preten­dem explicar, no passado, a “causa” de qualquer fenómeno ou acon­tecimento do presente. Um belo exemplo de lenda etiológica é o relato da destruição de Sodoma e Gomorra. Há ainda lendas etiológicas para expli­car a origem de nomes de pessoas (para Isaac, que significa “rir”, ver 18,9-15; 21,2-7 ).

A genealogia: é uma lista de nomes que recua o mais longe possível até ao passado, a partir do presente. Pretende justificar no aspeto jurídico cer­tos acontecimentos, privilégios de uma classe social ou de um povo ( 5,1-32; 10; 11,10-32 ). É sua intenção preencher o imenso espaço entre a Criação e a História do povo hebreu.

As sagas ou histórias antigas de todo o género: luta pelos poços, guer­ras tribais, histórias de famílias...

Também encontramos aqui a linguagem mítica. Sabemos que os auto­res do Génesis combateram os mitos. Mas, para falar dos grandes proble­mas da humanidade, não deixaram de utilizar a linguagem e certos elemen­tos mitológicos que estavam em voga, como a criação do homem a partir do barro ( 2,7 ), a árvore da Vida e a árvore da ciência ( 2,9-10; 3,1-6 ), o mito da serpente (cap. 3 ).

Todo este material foi colecionado muito lentamente. Primeiro surgiram pequenos conjuntos à volta de um santuário, de um acontecimento ou de uma personagem; podemos chamar-lhes tradições, e foram transmitidas oral­mente, ao longo de muitos séculos. Quando aparece a escrita, essas tra­di­ções são fixadas em documentos. Com a queda do Reino do Norte (Samaria), em 722, essas tradições são trazidas para o Sul (Jerusalém). Final­mente, no período do Exílio ( 587-538 ), os redatores da escola Sacer­dotal reúnem todas as grandes tradições e documentos existentes, impri­mindo-lhes o seu próprio estilo e teologia. Podemos dizer que o Génesis contém material recolhido entre os séculos XIII-V a.C.

Teologia e leitura cristã   Apesar de conter muitos elementos his­tóricos, o Génesis é uma obra essencialmente teológica que procurava res­ponder aos problemas angustiantes colocados pelo acontecimento do Exílio (séc. VI): no meio das trevas, Deus é a luz do seu povo; no desespero do cativeiro, Deus há de renovar a Aliança feita depois da saída do Egito.

Por detrás das “histórias” contadas pelos seus autores, o Génesis contém os grandes temas teológicos, não somente do Pentateuco mas da Bíblia em geral: a Aliança de Deus com a humanidade, o pecado do homem, a nova promessa de Aliança, a promessa da Terra Pro­metida, a bênção de Deus ga­ran­­­tindo a perenidade do Povo, o monoteísmo ja­vista.

O Génesis  não foi redigido para escrever História, mas para dizer que Deus domina a História. Por isso, é es­sencialmente um livro de catequese e de teologia, mesmo nos 11 primeiros capí­tu­los, em que não há preocupação his­tórica ou científica, no sentido atual. Por isso, a Pontifícia Comissão Bíblica, já em 16 de janeiro de 1948, dizia, a este respeito: “Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das nos­sas categorias clássicas e não podem ser julgadas à luz dos géneros literários greco-latinos e moder­nos.”

Todos os grandes temas teológicos do Génesis foram relidos pelos cris­tãos à luz do autor da nova criação, Jesus Cristo (Jo 1,1-3 ). As grandes per­so­nagens do Génesis – Adão, Eva, Noé, Abraão e os outros Patriarcas – apare­cem frequentemente ao longo do Novo Testamento para lembrar aos crentes que há uma só História da Salvação. Por isso, o Apocalipse – o último livro da Bíblia – não se compreende sem o primeiro.