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Novo Testamento é uma expressão que vem do latim: indica os livros da Bíblia escritos depois de Cristo e contrapõe-se a Antigo Testamento, ou seja, aos livros da Bíblia escritos antes de Cristo. Para designar os dois “Testamentos”, melhor seria a expressão “An­tiga Aliança” e “Nova Aliança” (berîth, em hebraico, e diatheke, em grego). De facto, a ideia teológica de aliança é fundamental na dinâmica interna da Bíblia, como Palavra de Deus para todos os crentes, e percorre-a do pri­meiro livro ao último. O Antigo Testamento resume-a nesta expressão: «Vós sereis o meu povo e Eu serei o vosso Deus.» (Lv 26,12; Jr 7,23; Ez 37,27)

Mas esta Aliança era provisória, apontava para a Nova Aliança (Jr 31,31-34) que foi selada com o sangue de Jesus Cristo (Mt 26,27; Mc 14,24; Lc 22,20). A este respeito, diz o Concílio Vaticano II: “A Palavra de Deus, que é power de Deus para a salvação de todos os crentes, apresenta-se e mani­festa a sua virtude de um modo eminente nos escritos do Novo Testa­mento. Pois, quando chegou a plenitude dos tempos, Cristo estabeleceu o Reino de Deus na terra, manifestou o seu Pai e a sua própria Pessoa com obras e palavras e completou a sua obra mediante a sua morte, ressurreição e glo­riosa ascensão e com a missão do Espírito Santo (...). De todas estas coisas são testemunho perene e divino os escritos do Novo Testamento.” (DV, 17)

O Novo Testamento e a História   Escritos entre os séc. I-II d.C., em plena civilização greco-romana, os livros do Novo Testamento aparecem-nos na língua “comum” dessa civilização (o grego da koiné) e giram em torno da mensagem de Jesus. Por isso, os Evangelhos são a base de todos os outros livros do Novo Testamento, que, por sua vez, os explicitam e aplicam à vida prática. Mas não podemos compreender suficientemente a mensagem de Jesus nem os escritos que a explicitam, sem conhecermos as circuns­tân­cias históricas em que nasceram.

Jesus anunciou a Boa Notícia da salvação apenas oralmente, em ara­maico, a língua falada então na Palestina. Os seus discípulos também não escreveram. Preocupava-os mais o anúncio oral – porque urgente – do Evan­gelho. A atitude de Jesus e dos seus discípulos faz do cristianismo, não uma “Religião do Livro”, mas a religião que se centra numa Pessoa – Jesus Cristo. De­pois de terem ouvido a mensagem oral, durante a “primeira geração” cristã, é que os discípulos da “segunda geração” registaram por escrito as palavras e os factos da vida de Jesus para incutir nos cristãos maior fide­lidade à mensagem e os conduzir à fé e à salvação em Cristo (Lc 1,1-4; Jo 20,30-31). Os Evangelhos não são unicamente a “Histó­ria de Jesus”; são sobretudo a narração escrita das palavras e dos factos de Jesus de Nazaré, mas já iluminados pelo Cristo ressuscitado, presente na sua Igreja ao longo de muitos anos.

A Constituição Dei Verbum (n.° 19) diz que os Evangelhos não são His­tória escrita à maneira do nosso tempo. Os evangelistas fazem uma História em função da fé, da teologia: resumem, interpretam, explicam e redigem fac­tos da vida de Jesus para apresentar uma determinada ideia teológica a uma determinada classe de ouvintes.

Ambiente político-religioso do Novo Testamento   Gene­ricamente falando, o ambiente histórico-geográfico do Novo Testa­mento é greco-romano. A Palestina cai sob o domínio dos Césares de Roma em 63 a.C. e, com o Império, entra no povo da Bíblia a cultura helenista, que se tornara a cultura mais importante do Império Romano (ver Lc 3,1-2). De facto, um Império geograficamente enorme e com uns cinquenta milhões de habitantes albergava no seu seio multidões de povos, religiões e culturas diferentes (ver Mapas). No entanto, este pluralismo cultural e religioso fa­ci­litou, de certo modo, a expansão do cristianismo, que não tardou em adap­tar as suas origens semitas à cultura dominante. Neste campo, deve ser concedido um especial relevo a Paulo (ver At 15). A Palestina, sobretudo pela mão de Herodes, o Grande (que reinou entre 40 a.C. e 4 a.C.; ver Mt 2,1 nota), entrou também no caminho da civilização helenista, pelas grandes obras, jogos e espetáculos copiados dos helenistas.

Politicamente, as autoridades da Palestina – reis ou procuradores roma­nos – dependem do Imperador de Roma. Pilatos foi o procurador mais famoso (entre 27 e 37 d.C.), por ter participado ativamente no processo e na morte de Jesus. A partir de 66 d.C., começou a revolta contra o power romano, que foi severamente punida com a destruição de Jerusalém e do Templo, inaugurado poucos anos antes. Com a destruição do Templo, desaparece a classe politicamente mais forte, a classe sacerdotal ou dos Saduceus. Na fuga geral, também a pequena comunidade cristã de Jerusalém, segundo algu­mas tradições, se refugiou em Péla, na Decápole e noutros locais próxi­mos. A partir de 70 d.C. desaparecem todos os principados da Palestina e o ter­ritório é governado por administração direta de Roma.

Economicamente, a Palestina, pequeno território junto do deserto, con­tava pouco na economia do Império. Interessa, no entanto, saber como nela se vivia para compreender a linguagem utilizada por Jesus nos Evangelhos, sobretudo nas parábolas. Trata-se de um território de agricultura medi­ter­rânica (trigo, cevada, figueira, oliveira, videira) e de pastoreio de gado miúdo (ovelhas e cabras). A pequena indústria e o comércio também ocupam um lugar de destaque na vida quotidiana do povo.

Religiosamente, fervilhavam pelo império muitas religiões e cultos pagãos, que gozavam de uma relativa liberdade of culto e de proselitismo. Na Palestina, o templo de Jerusalém concentrava as principais institui­ções judaicas. Era o centro religioso, o lugar de Deus, do sacerdócio, das fest­as nacionais; mas também onde as pessoas ligadas ao culto exerciam o power político. Todo o varão judeu adulto pagava uma didracma por ano de im­posto ao Templo. Isso transformava o Templo no centro económico do povo de Deus.

O primeiro Templo tinha sido construído por Salomão no séc. X e des­truído pelos Babilónios em 587 a.C.. O segundo, mais modesto, foi const­ruído em 515, depois do exílio da Babilónia. Um terceiro Templo foi cons­truído por Herodes, o Grande; inaugurado no ano 60 d.C., foi destruído pelos Romanos no ano 70. Em forma de cubo de uns cinquenta metros e rodeado de vários átrios e portas, era uma obra digna da admiração de qualquer visitante (ver Mt 24,1; Mc 13,1; Jo 2,20). No tempo de Jesus estava na fase de acabamento.

A Sinagoga era a instituição religiosa mais importante depois do Tem­plo, aonde todo o bom judeu acudia, cada sábado. O próprio Jesus frequentava a Sinagoga (Lc 4,16-38). Era o lugar onde se proclamava e comentava a Pala­vra de Deus e se fazia a oração da comunidade; também servia de escola e centro de cultura. Teve especial importância sobretudo na Diáspora. Era chefiada pelos Doutores da Lei e fariseus; e, como não havia sacrifícios, os sacerdo­tes não tinham nela importância de maior.

Interessa aqui referir, com particular relevo, os grupos religiosos de então:

Os Fariseus. Pessoas da classe média e baixa, eram especialmente devo­tos e cumpridores de todas as normas da Lei de Moisés. A sua origem, sendo embora duvidosa, deve remontar à revolução de Judas Macabeu (séc. II a.C.: 1 Mac 2,42). Considerando Deus como o único Rei de Israel, opunham-se ao power político instalado: os Romanos e a dinastia de Herodes. Como dominavam na Sinagoga, mediante a sua pregação, levavam o povo a pen­sar do mesmo modo. Por isso, constituíam o grupo mais numeroso de todos. Jesus denunciou muitas vezes a sua rigidez legalista, que não respeitava o mais importante – o amor – e juntava muitas outras tradições – a chamada Lei oral ou “tradição dos antigos” – às prescrições escritas na Bíblia. Admi­tiam como canónicos todos os livros da atual Bíblia Hebraica, ou seja, a Lei, os Profetas e outros Escritos (os do AT que estão nas Bíblias católicas, exceto os dêutero-canónicos). Sendo rígidos na observância da Lei, eram progres­sistas nas ideias religiosas, pois admitiam, ao contrário dos Saduceus, a ressurreição final e a existência de anjos. Destruído o Templo, no ano 70, com ele desapareceu também a sua organização cultual: os sacerdotes e os sacrifícios. Restava a Lei, a Palavra de Deus que estava na mão dos fari­seus da Sinagoga. E foi a Sinagoga que perpetuou o judaísmo até aos nossos dias.

Os doutores da Lei ou Escribas. Eram o grupo mais ligado ao dos fari­­seus. O Novo Testa­mento refere frequentemente estes rabinos copistas que se tornaram também intérpretes da Lei. Eram os “teólogos” do farisaísmo, em­bora também hou­vesse doutores da Lei entre os saduceus.

Os saduceus (nome que deriva do Sumo Sacerdote Sadoc) existiam, como partido político, desde o séc. II a.C.. Eram a classe mais ligada ao Tem­plo, por constituírem a classe sacerdotal. Além do sacerdócio, detinham ainda grande parte do power político, pois, ao contrário dos fariseus, pre­sidiam ao Sinédrio, mediante o Sumo Sacerdote. Politicamente abertos à autoridade romana, eram conservadores em religião, pois, ao contrário dos fariseus, admitiam como canónicos apenas os cinco primeiros livros da Bí­blia (Pentateuco) e negavam a existência dos anjos e a ressurreição. Esta classe sacerdotal, no exercício das suas funções, era assistida pelos Levitas, que tinham espe­cial missão no canto litúrgico e nos sacrifícios.

Os samaritanos. Como o nome indica, eram os habitantes da Samaria, descendentes da população mista – israelita e pagã – que ocupou aquele território depois do exílio dos Samaritanos para Nínive (711 a.C.). Como livros canónicos, só admitiam o Pentateuco (tal como os Saduceus) e tinham um templo no monte Garizim (2 Rs 17,24-28; Esd 4,1-4). Por este motivo, os Judeus (habitantes da Judeia, ao sul) rejeitavam-nos, como se fossem pa­gãos (Lc 10,25-37; Jo 4,19-22).

Os zelotas. Como o próprio nome indica, zelavam pela independência nacional de Israel contra o power político estrangeiro. Mas a sua luta era vio­lenta, provocando sucessivos confrontos e atentados contra o exército ocupante.

Os herodianos. Eram os partidários da dinastia de Herodes, o Grande, que governou os diversos territórios da Palestina a partir do ano 37 a.C. sob a suprema autoridade dos Imperadores de Roma (ver Lc 13,31-32).

ESCRITOS E COLEÇÕES DO NOVO TESTAMENTO   O Novo Testa­mento está integrado por 27 livros, divididos em vários grupos ou coleções de escritos: Quatro Evangelhos e Atos dos Apóstolos, Cartas de Paulo, Carta aos Hebreus, Cartas Católicas (Tiago, 1 e 2 de Pedro, 1, 2 e 3 de João, Judas) e Apocalipse de João. Trata-se de uma grande quantidade de livros, e de dife­rentes géneros literários, o que torna mais difícil a sua com­preen­são. Por isso é feita uma breve Introdução a cada uma destas coleções.

A ordem acima referida é temática e pouco tem a ver com a cronologia. De facto, o escrito mais antigo do Novo Testamento é a Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses; e o Evangelho de João foi um dos últimos escri­tos a aparecer. Tais coleções, portanto, estão organizadas segundo a temá­tica e o género literário (ver p. 2136).

A TÁBUA CRONOLÓGICA seguinte pode ajudar-nos a situar melhor os diferentes textos sagrados do Novo Testamento nas suas circunstâncias his­tóricas:

AnoImperadores romanosHerodianos e Procuradores romanosVidas de Jesus e PauloLivros do Novo Testamento
a.C. 10AugustoHerodes, o Grande (37-4 a.C.)Nascimento de Jesus (pelo ano 6 antes da eraatual)
d.C.-Arquelau (até 6 d.C.) 1 Filipe (até ao 34)--
10Tibério (1-37)Herodes Antipas (até ao ano 39)-
20--Batismo de Jesus (28)
--Pilatos (26-36)Morte e Ressurreição de Jesus (30)
-Calígula (37-41)Herodes Agripa (37-44)Conversão de Paulo (ano 34)
40Cláudio (41-54)Félix (52-60)1.ª Viagem missionária de Paulo (47)
--2.ª Viagem missionária
50Nero (54-68)3.ª Viagem missionária Gl; 1 e 2 Cor; Fl; Rm (anos 54-58)
60-Festo (60-62)4.ª Viagem, para Roma 1 e 2 Tm; Tt (60-61)
--Vespasiano (69-79)Morte de Paulo (67)
70Tito (79-81)--
80Domiciano (81-96)--
90Nerva (96-98)--
100Trajano (98-117)--

Como e quando se formaram estas coleções?   Como dissemos, os discípulos de Jesus só bastante tarde resolveram escrever a sua mensagem. Primeiro, porque o Mestre não lhes apareceu como um escritor, mas como um mensageiro de Deus (Mt 28,16-20). Além disso, a primeira geração cristã vivia num ambiente escatológico, pensando que Jesus estava para vir, glorioso, «sobre as nuvens do céu», conforme a profecia de Daniel (Dn 7,13; Mt 26,64; Mc 14,62; 1 Cor 16,22; 1 Ts 4,17; Ap 22,20). Não admira, pois, que os primeiros escritos do cristianismo sejam Cartas, destinadas a resolver problemas concretos de um determinado momento histórico das comunidades (1 Ts 4,13-18).

A necessidade de escrever a mensagem de Jesus veio do afastamento cada vez maior da sua fonte – o próprio Jesus de Nazaré (Lc 1,1-4; Jo 20,30-31). A meados da década de 70, já não viveria a quase totalidade das «teste­mu­nhas oculares» do Senhor ressuscitado (Lc 1,2; 1 Cor 15,3-8). Esse distancia-mento cronológico entre Jesus e as comunidades só poderia ser vencido pela palavra escrita. E assim se formaram as duas grandes coleções ou “corpus” das Cartas de São Paulo e dos Evan­gelhos.

Para a escrita da mensagem de Jesus e para a formação destas coleções muito contribuiu a autoridade dos Apóstolos, em nome dos quais esses tex­tos foram escritos. Grande parte dos livros da Bíblia são pseudónimos, isto é, atribuídos a uma personagem importante, para terem melhor aceitação perante o público. Nesse tempo não existia o direito de autor. Sobressai o caso do Apocalipse, de um profeta chamado João, que foi associado ao Após­tolo João. De outro modo, este livro teria tido ainda maiores dificuldades em entrar no Cânon dos livros inspirados.

Não podemos esquecer a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, pois “Deus, inspirador e autor dos livros de ambos os Testamentos, dispôs sabia­mente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo, e o Antigo se tornasse claro no Novo (…). Os livros do Antigo Testamento, integral­mente assumidos na pregação evangélica, adquirem e manifestam a sua signi­­ficação completa no Novo Testamento, ao mesmo tempo que o ilumi­nam e explicam” (DV 16). Por isso, nesta Bíblia, as citações do AT no NT vão em itálico.