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SALMOS

O nome atual do Livro dos Sal­mos, ou simplesmente Salmos,  está diretamente ligado à mais antiga designação utilizada para esta coleção de poemas ou cânticos religiosos. O nome português deriva da palavra grega “Psalmoi” e esta é já utilizada na antiga tra­du­ção grega, chamada dos Setenta, para traduzir o termo hebraico “mizmo­rôt”, (cân­­ti­cos). Este parece ter sido o seu nome he­braico mais antigo. Por isso, quando o Novo Testamento lhe chama “biblos psalmôn” (Lc 20,42; At 1,20), está a usar uma designação correta e for­mal. No entanto, já nos textos de Qumrân e em alguns autores cristãos antigos aparece o nome que atualmente lhe é dado na Bíblia Hebraica: “Sepher Tehillim”, “Livro dos lou­vores”.

Texto e interpretação   O tempo tão longo da formação dos Sal­mos e o facto de terem vindo a ser objeto de leitura e utilização contí­nuas, e mesmo quotidianas, torna possível que o texto, um dos mais anti­­gos da Bí­blia, possa ter sofrido influências derivadas dessa leitura e mesmo algu­mas trans­forma­ções de conteúdo e sentido. A leitura repetida, geração após gera­ção, e a acumu­lação interpretativa que assim se forma, atribui a estes textos uma riqueza transbordante de conteúdos.

Nem sempre é fácil tradu­zir num só texto esta multiplicidade. Aqui, ten­tamos dar o sentido mais exato possível do texto hebraico, na medida em que no-lo permitem as dificul­da­des de cada passagem.

Composição e data   A tradição hebraica e cristã sempre atribuiu uma grande importância a David, como estando na origem dos Salmos . Isso repre­senta bem o ascendente que esse rei teve na criação das insti­tuições em que Israel via espelhada e assente a sua vida cultual e espiritual, nomea­da­mente o culto do templo de Jerusalém. E é ao culto que está certamente ligada a composição da maior parte dos Salmos . No entanto, estes poemas religio­sos foram compostos ao longo de muitos séculos e alguns deles pode­rão ter sido compostos não muito antes do tempo do Novo Testamento.

Nada impede que a maioria seja anterior ao Exílio e alguns deles possam mesmo ser do tempo de David; alguns podem até ser mais antigos. É que estes hinos religiosos são herdeiros e, em certos casos, em linha direta, da poesia religiosa da tradição cananaica, que os hebreus, em boa parte, apro­veita­ram. Houve certamente épocas privilegiadas na produção destes Salmos ; a de David poderá ter sido uma delas.

Uso e lugar na Bíblia   Para os hebreus, os Salmos não tinham tanta importância como os livros atribuídos a Moisés, por exemplo. Daí terem sido colocados na terceira secção, a dos “Escritos”, depois da “Lei” (Torá) e dos “Pro­­fe­tas”. Há nesta gradação algum escalonamento quanto à respetiva valo­ri­za­ção teológica. Mas, na vida religiosa, os S almos representavam um patri­mónio muito utilizado e um elo fundamental de transmissão da fé; alguns deles são, seguramente, dos textos mais repetidos de toda a Bíblia.

Do judaísmo ao cristianismo, a vivência religiosa de grande parte da huma­­ni­dade teve o seu alimento e a sua expressão mais natural no texto dos Salmos . Se pensarmos que o modelo básico e até um ou outro salmo podem ter vindo diretamente da cultura religiosa de Canaã anterior aos hebreus, maior é o seu percurso e a sua representatividade. Cantar um salmo, hoje‚ é um ato de comunhão religiosa e humana que atravessa milénios de expe­riência.

Organização   O Livro dos Salmos engloba, na atual Bíblia Hebraica, um conjunto de 150 cânticos de que os Sl 1 e 2 constituem a abertura e o Sl 150 representa o encerramento. Mas, na história antiga do texto bíblico, as numerações dos Salmos variaram bastante, sem que se modificasse o seu conteúdo literário. Este conjunto de cânticos era dividido de maneiras dife­rentes, de tal modo que resultava um número umas vezes inferior e outras supe­rior ao de 150, que se tornou o número canónico no texto he­braico.

Um resto desta antiga variedade na numeração dos Salmos é aquela que ficou na tradução grega dos Setenta, de onde transitou para as tradu­ções lati­nas dela dependentes e ainda se encontra em antigas tradu­ções portu­gue­sas. Nestas, os Salmos que se encontram entre o 9 e o 147 levam um nú­mero a menos. Esta segunda numeração é adotada pelas edições litúrgi­cas e, neste texto, vai entre parêntesis.

A numeração nas duas Bíblias é a seguinte:

BÍBLIA HEBRAICASETENTA E VULGATA
1-81-8
99,1-21
109,22-39
11-11310-112
114113,1-8
115113,9-26
116,1-9114
116,10-19115
117-146116-145
147,1-11146
147,12-20147
148-150148-150

A organização de vários conjuntos no interior do Livro dos Salmos  tra­duz também algo da história da sua composição: temos coleções de “Sal­- mos de David”: 3-41 e 51-72; “de Asaf”: 50 e 73-83; “de Coré”: 42-49; 84-85; 87-88; “Cânticos de peregrinação”: 120-134; “Salmos de aleluia”: 105-107; 111-118; 135-136; 146-150. Alguns outros Salmos foram dispersos por entre estas coleções.

Classificação dos salmos   O conteúdo e o contexto dos Salmos  fazem com que todos tenham um aspeto semelhante. São expressões de vivên­­­cia religiosa e de oração. Mesmo assim, existem géneros literários que identificam todo um grupo de Salmos, com temas, processos, fórmulas e es­tru­­­turas semelhantes.

O mais normal é existir certa mistura de géneros literários, de modo que cada salmo pode partilhar elementos provenientes de vários géneros. Podem--se destacar, no entanto, os seguintes géneros literários:

Salmos de louvor ou hinos. São hinos de louvor utilizados com muita frequência na liturgia das festas, e dos quais se conhecem muitos outros exem­plos dispersos pela Bíblia, tal como o Magnificat e outros, no Novo Tes­ta­mento. Veja-se Sl 8, 19, 29, 33, 100, 103, 104, 111, 113, 114, 117, 135, 136, 145, 146, 147, 148, 149, 150.

Semelhantes a estes são os “Salmos da realeza de Javé”, que celebram a Deus como rei: Sl 47, 93, 96, 97, 98, 99; e os “Cânticos de Sião”, que cele­bram Sião ou Jerusalém como cidade de Deus: Sl 46, 48, 76, 84, 87, 122.

Salmos individuais de súplica, confiança ou ação de graças. São cla­ra­mente os mais numerosos de todos, o que revela bem a atenção à expe­riên­cia e aos problemas pessoais da fé, no âmbito da liturgia do povo bíblico. As três categorias traduzem um conteúdo específico: de súplica: Sl 5, 6, 7, 13, 17, 22, 25, 26, 28, 31, 35, 36, 38, 39, 42, 43, 51, 54, 55, 56, 57, 59, 61, 63, 64, 69, 70, 71, 86, 88, 102, 109, 120, 130, 140, 141, 142, 143; de confiança: Sl 3, 4, 11, 16, 23, 27, 62, 121, 131; e de ação de graças: Sl 9, 10, 30, 32, 34, 40, 41, 92, 107, 116, 138.

Deste conjunto, os Salmos 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143 costumam ser desig­­na­dos também como “Salmos penitenciais”, dado o seu espírito e o uso litúrgico tradicional.

Salmos coletivos de súplica, confiança ou ação de graças. Partem de uma experiência humana coletiva e exprimem a vivência comunitária que se realiza no culto. São claramente menos numerosos do que os individuais. Exemplos de súplica: Sl 12, 44, 58, 60, 74, 79, 80, 82, 83, 85, 90, 94, 106, 108, 123, 126, 137; de confiança: 115, 125, 129; de ação de graças: 65, 66, 67, 68, 118, 124.

Salmos reais. Têm como tema a importante função exercida pelos reis dentro da comunidade de Israel. Sendo embora um tema diferente do dos  “Sal­­mos da realeza de Javé”, têm certamente algumas analogias com as espe­­ranças messiânicas, porque estas voltam-se para uma figura com alguns contornos de rei. Exemplos: Sl 2, 18, 20, 21, 45, 72, 89, 101, 110, 132, 144.

Salmos didáticos. Tal é o título que se pode dar a um certo número de Salmos que ajudam a refletir sobre temas, acontecimentos e valores im­por­tantes. Podem subdividir-se em “Salmos sapienciais” ou de meditação: 1, 37, 49, 73, 91, 112, 119, 127, 128, 133, 139; “ s almos históricos”: 78, 105; “ s al­mos de exortação profética”: 14, 50, 52, 53, 75, 81, 95; e “ s almos rituais”: 15, 24, 134.

TEOLOGIA   Sistematizar o pensamento que nos é oferecido no Livro dos Salmos  tem muito a ver com tudo o que anteriormente se disse da sua lei­tura. Não é verdadeiramente um livro, nem foi feito de uma só vez; não tem, portanto, uma doutrina uniforme e explícita. A sua verdadeira unidade é a da atitude de oração que em todos eles se exprime.

Mesmo assim, há ideias que são expressas com mais ou menos intensi­dade. A utilização que tiveram fez deles a expressão literária das verdades religiosas fundamentais. É o caso das expetativas messiânicas, facilmente associadas aos Salmos de temática real.

Mas o que eles traduzem mais explicitamente é sobretudo a conceção de Deus e de todos os elementos decisivos da experiência religiosa: um Deus que governa o mundo, a vida e a História, que é acolhedor e pró­ximo, disposto a atender os pedidos de socorro, os gritos de desespero e os anseios de espe­rança, tanto de cada indivíduo como de toda a comunidade.

Devido a esta representatividade, os Salmos  tornam-se como que um tra­tado de teologia bíblica, uma vez que a sua expressividade orante encerra subti­lezas tão íntimas que facilmente escapariam aos tratados catequéticos ou mesmo proféticos.