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ZACARIAS

As diferenças de estilo e conteúdo entre os conjuntos 1-8 e 9-14 deste livro são tais que, hoje, é consensual que se trata de dois livros de época e autor diversos. Também é verdade que a sua junção não foi obra do acaso, uma vez que os contactos entre os dois conjuntos são suficien­temente fortes para o justificarem. Analisamos cada um deles sepa­ra­damente.

PRIMEIRA PARTE (1,1-8,23)

AUTOR E LIVRO   No AT há mais de trinta pessoas com o nome de Zacarias. Do profeta diz-se que era «filho de Baraquias, filho de Ido» (1,1.7; 7,1.8) ou «fil­ho de Ido» (Esd 5,1; 6,14). Sem entrarmos na discussão que o caso sus­cita, vamos considerá-lo como da descendência de Ido, um dos sacerdotes regres­s­ados do Exílio referidos por Ne 12,4 (ver Is 8,2).

Situando-se na linha dos profetas clássicos, aparecendo mesmo na con­ti­nuidade literária de alguns deles (2.° Is e Ez), o texto de Zacarias  pode colocar-se perfeitamente entre o género profético e o apocalítico.

DATA E CONTEÚDO   A atividade do profeta Zacarias (cap 1-8), a partir da cronologia que o livro nos apresenta, estende-se do oitavo mês do segundo ano de Dario (520 a.C. – dois meses depois da primeira profecia de Ageu) até ao nono mês do quarto ano (518), isto é, por dois anos. Se não temos nenhuma confirmação desta cronologia, também é verdade que não há nada que a des­minta. Antes, ela concorda perfeitamente com o que se sabe de Zacarias : um dos grandes impulsionadores da reconstrução do templo, juntamente com Ageu.

Podemos dividir esta primeira parte em duas grandes secções, antece­didas de uma breve introdução:

Introdução (1,1-6): um apelo à conversão.

Primeira secção (1,7-6,15): é a secção principal do livro. Apresenta-nos oito visões com breves oráculos disseminados pelo meio daquelas.

Segunda secção (7,1-8,23): é um conjunto de oráculos, que surgem numa apa­rente desordem.

TEOLOGIA   Esta primeira parte do livro é certamente autêntica e está cen­trada em perspetivas messiânicas. A reconstrução do templo – como em Ageu – é uma das grandes preocupações do profeta, com a restauração nacio­­nal e as suas exigências de pureza e moralidade. O governo da comu­nidade é con­fiado ao Sumo Sacerdote Josué, ou Jesua, e ao governador Zorobabel (6,11-12; Esd 3,1-7).

O Messias – designado pela palavra «Gérmen» (3,8) – exerce o poder régio; entretanto, isso mesmo é dito acerca de Zorobabel em 6,12. É este, pois, que traz em si as esperanças dos repatriados. Os dois ungidos, Josué e Zoro­ba­bel (4,14), governarão em perfeito acordo (6,13). Temos, assim, a ideia an­tiga do mes­sia­nismo real associada às preocupações sacerdotais de Ezequiel.

A influência deste profeta manifesta-se no papel relevante que têm as vi­sões na tendência apocalítica, na insistência na pureza e na con­ver­são fu­tura dos pagãos. Mas Jerusalém continuará a ser a parte escolhida por Deus, porque Ele voltará ao templo que vai ser reconstruído (2,15-17). Deus purificará a Terra Santa de todo o pecado. Na Babilónia, con­siderada como o centro do paganismo, será construído o templo do pe­cado (5,5-11).

SEGUNDA PARTE (9,1-14,21)

AUTOR E DATA   Para uma grande parte dos especialistas, estamos diante de uma antologia de textos de origem diversa que foram recolhidos e “cola­dos” a Zacarias.

Assim sendo, não parece ser possível falar de uma unidade de autor, nem de uma data precisa. Alguns situam esta segunda parte no tempo de Ale­xan­dre Magno (332-300 a.C.).

DIVISÃO E CONTEÚDO   Esta se­gunda parte ca­rece de unidade, tanto  literária como do ponto de vista do con­teúdo. Pode­mos, no entanto, sub­di­vidi-la tam­bém em duas secções:

A primeira secção (9,1-11,17), em que se fala da salvação do povo es­co­lhido, pode dividir-se em três blocos: 9,1-10,2; 10,3-11,3; 11,4-17 (+13,7-9).

A segunda secção (12,1-14,21), caraterizada pela repetição da fór­mula «Naquele dia...» (17 vezes), é de tom claramente escatológico. Trata-se da renovação de Jerusalém (12-13) e do combate esca­to­lógico (14).

TEOLOGIA   O texto do Segundo Za­carias está repleto da esperança mes­siâ­nica, que se vinha apagando na co­munidade. É, por isso, um dos textos mais usados no NT para descrever a figura do Messias. As imagens que usa reve­lam dependência de outros escri­tos proféticos anteriores (especial­men­te Isaías e Ezequiel); mas a novidade da perspetiva em que as usa concede-lhes uma clara singularidade teológica.

A imagem do salvador guerreiro, que consegue a vitória numa luta en­car­niçada, não é nova; que a salvação seja conseguida por um “tras­pas­sado” (12,4), por um rei humilde (9,9) ou pelo pastor rejeitado (11,4-17) não serve somente para dar alento aos deses­perados de um tempo, mas aos de toda a História, e foi vista como profecia do Messias Sofredor.